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A Parábola do Fariseu e do Publicano
Humildade e Oração

A Parábola do Fariseu e do Publicano

Dois homens foram ao templo orar. O fariseu agradeceu não ser como outros pecadores. O publicano, sem nem levantar os olhos, disse: 'Deus, sê propício a mim, pecador.' Jesus disse que apenas o publicano desceu justificado.

Irmão Edson Santos
Escrito por Irmão Edson Santos Professor e pesquisador das Escrituras
30/07/2026

A Parábola do Fariseu e do Publicano (Lucas 18.9-14) é introduzida por Lucas com uma nota editorial rara: Jesus a contou "para alguns que confiavam em si mesmos, crendo ser justos, e desprezavam os demais" (Lc 18.9). O alvo é específico — a autopercepção religiosa que se alimenta da comparação com outros. E a conclusão inverte toda a expectativa: o homem considerado irreligioso desceu justificado; o considerado exemplar não.

Os Dois Orantes

Os dois foram ao Templo para orar. O Templo era o centro da vida religiosa judaica — o lugar da presença de Deus, dos sacrifícios e das orações cotidianas. Ambos foram ao lugar certo. A diferença estava em como cada um se posicionou diante de Deus.

O fariseu "orando em si mesmo" — a expressão pode significar tanto "em voz baixa" quanto "para consigo mesmo", direcionado mais a si do que a Deus. Sua oração foi: "Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens — roubadores, injustos, adúlteros — nem mesmo como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo" (Lc 18.11-12). Cada afirmação era factualmente verdadeira — os fariseus realmente jejuavam duas vezes por semana e pagavam o dízimo meticulosamente. O problema não era a mentira; era que a oração era, na essência, um informe de desempenho.

A Oração do Publicano

O publicano "estava em pé, de longe" — mantinha distância física que refletia distância espiritual percebida. "Não queria nem os olhos levantar ao céu." Era a postura de quem sabe que não merece estar ali. "E feria no peito, dizendo: Deus, sê propício a mim, pecador!" (Lc 18.13). A palavra traduzida como "sê propício" é hilastheti — a mesma raiz de "propiciação", "expiação". O publicano estava pedindo o que os sacrifícios do Templo simbolizavam: a cobertura do pecado pela misericórdia de Deus.

A oração do publicano tem seis palavras em grego: "Deus, sê propício a mim, o pecador." O artigo definido em "o pecador" — não "um pecador" mas "o pecador" — sugere que ele não estava fazendo uma comparação genérica: estava se identificando totalmente com o peso de sua condição diante de Deus.

A Declaração de Jesus

"Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exaltar será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilhar será exaltado" (Lc 18.14). A palavra "justificado" (dedikaiōmenos) é o mesmo vocabulário que Paulo usa em Romanos para a justificação pela fé. O publicano que nada tinha a apresentar — nenhum dízimo, nenhum jejum, nenhuma comparação favorável — desceu do Templo com o status que o fariseu religioso assumia ter mas não tinha.

O Perigo da Comparação Religiosa

A parábola expõe a estrutura profunda da religiosidade autorreferencial: ela precisa de pecadores piores para funcionar. O fariseu não poderia ter aquela oração sem o publicano como referência. A espiritualidade que mede sua própria saúde pela comparação com os outros é fundamentalmente instável — sempre depende de encontrar alguém pior. E quando não encontra, inventa.

A alternativa é a oração do publicano: sem comparação, sem relatório de desempenho, sem mérito alegado. Apenas a consciência direta da própria necessidade diante de um Deus que pode supri-la. Paulo entenderia: "Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal" (1 Tm 1.15). O apóstolo que havia escrito sobre a justificação pela fé era, em sua autoavaliação, o maior dos pecadores. E desceu justificado.

A Parabola do Fariseu e do Publicano tambem lanca luz sobre a justificacao. O publicano nao fez nada para merecer ser justificado — ele nao prometeu mudar, nao apresentou plano de melhorias, nao pagou uma divida pendente. Simplesmente reconheceu sua condicao e pediu misericordia. E desceu justificado. A justificacao pela fe que Paulo desenvolveria em Romanos e Galatas tem sua parabola mais simples e mais poderosa nessa cena no Templo: nao ha desempenho que produza justificacao, apenas a fe que cessa de se justificar e confia na misericordia divina. O publicano e o heroi improvavel da teologia da graca.

A oracao do publicano — Deus, se propicio a mim, pecador — e a oracao mais curta e mais completa que um ser humano pode fazer. Cinco palavras que reconhecem quem e Deus, quem e o orante, e o unico canal possivel entre os dois: a misericordia. Ela nao pressupoe merito, nao apresenta argumentos, nao negocia condicoes. Apenas se coloca diante da bondade de Deus e espera. E e essa oracao — nao o extenso relatorio de desempenho do fariseu — que desceu justificada. Para quem se sente longe de Deus por causa do proprio passado, a oracao do publicano e o ponto de partida disponivel agora mesmo.

A conclusao da Parabola do Fariseu e do Publicano e uma das mais subversivas das Escrituras: quem desceu justificado foi o que menos merecia, segundo qualquer calculo humano. O Templo viu dois homens orar — um com historico impecavel, outro com historico de traicao publica. E o Templo testemunhou o paradoxo da graca: o que tinha mais historico religioso desceu sem justificacao; o que tinha menos desceu com ela. Porque a justificacao nunca foi sobre historico — foi sempre sobre a disposicao de se lancar na misericordia de Deus sem apresentar nenhum outro argumento.

Irmão Edson Santos

Irmão Edson Santos

Professor de Língua Inglesa e pesquisador das Escrituras, com anos de dedicação ao estudo bíblico e ao ensino da fé cristã.

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